A Atenção Primária à Saúde como campo de conhecimento e a Medicina de Família e Comunidade como disciplina

Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade RBMFC

Resumo


É muito freqüente em nosso meio profissional e acadêmico a confusão de siglas e denominações, denotando não só uma certa falta de consenso sobre os termos a utilizar, mas também um desconhecimento da própria área profissional em que atuamos. Isto pode ser conseqüência da entrada de muitos e novas gestores e profissionais a lidar com um Campo antes pouco tematizado e priorizado em nossos governos ou espaços acadêmicos. Podemos afirmar que em nossa área tudo esta em construção, incluindo as próprias denominações que utilizamos. Assim a área em que atuamos e o campo do conhecimento ao qual nos dedicamos tem, por vezes, distintas e confusas denominações. O termo mais freqüente em trabalhos que recebemos é "PSF". Este seria também, ao nosso ver, o mais impróprio de todos. "PSF" refere-se a uma sigla de Programa Saúde da Família, programa este já inexistente e pertencente à história. Hoje a Saúde da Família é, sobretudo, uma estratégia de governo e política consagrada pelo SUS para a renovação e fortalecimento da Atenção Primária à Saúde em nosso país. Já a Atenção Básica poderia ser considerada atualmente os setores governamentais em seus diversos níveis federativas a gerenciar as unidades e equipes de saúde da família, ou a Estratégia Saúde da Família. Vale mencionar ainda que a Atenção Básica, durante os anos recentes, foi usado no Brasil como sinônimo de Atenção Primaria a Saúde. Quanto à citação atenção primaria, entendemos que esta se refere muito mais a um dos níveis hierárquicos do sistema de saúde, tal como está consagrado o principio da hierarquização do SUS, na Constituição brasileira, incluindo os outros níveis do sistema, secundário, terciário etc.

O meio acadêmico é igualmente profícuo em denominações. Assim existem inúmeras formas de citar a especialidade médica: "medico de família", "medico generalista", "clinico geral". Neste aspecto a SBMFC consagrou e oficializou a denominação "medico de família e comunidade", decorrência natural do nome da especialidade. Os cursos e disciplinas de graduação e pós-graduação têm também muitas denominações: atenção integral, saúde da comunidade, saúde da família, atenção primaria, "psf" etc.

Sem pretender normatizar ou definir as melhores ou as mais corretas denominações cabe a RBMPC levantar este debate ainda que nossos leitores possam achar um assunto de pouca importância. Entendemos que as denominações que usamos dizem respeito não só à propriedade e a correção da que somos e fazemos, mas também tem a função de fortalece A nossa própria identidade como profissionais, gestores, pesquisadores e acadêmicos. Assim pensamos que o campo de práticas seria melhor definido como as unidades de saúde da família, que compõem uma rede de atenção básica, setor apropriada para lidar com este nível de atenção no sistema municipal de saúde. Já o nosso campo de conhecimento poderia ser definido coma Atenção Primária à Saúde, que transcende um mero nível de atenção do sistema. A APS poderia ser visto assim como um complexo campo do conhecimento, de caráter multidisciplinar. A Medicina de Família e Comunidade seria, por fim, não só a denominação da especialidade no Brasil como a nossa disciplina cientifica e acadêmica.

Esperamos com este editorial suscitar o debate, que muito mais do que semântico, se relaciona com o projeto presente e futuro de nossa inserção política, profissional e acadêmica e, sobretudo, com do nosso compromisso de atuar em prol da saúde do povo brasileiro,

Carlos Eduardo Aguilera Campos


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DOI: https://doi.org/10.5712/rbmfc4(16)161

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