Nem tudo que reluz é ouro: discutindo prevenção quaternária a partir de ditados populares

Antônio Augusto Dall'Agnol Modesto

Resumo


A Medicina tem convocado as pessoas a realizarem cada vez mais ações preventivas, desde medidas de pressão arterial até a aplicação de novas vacinas; entretanto, médicas e médicos de família e comunidade têm identificado riscos e limitações das ações preventivas, mostrando que nem todas elas são ética ou cientificamente justificáveis. Esse é o escopo da prevenção quaternária, que visa poupar as pessoas de sobremedicalização e procedimentos desnecessários. Vivendo em uma sociedade que prima pela alta tecnologia, onde o terror virou negócio e o autocuidado, uma obsessão, pode ser muito difícil desaconselhar a realização de algum exame ou desprescrever alguma medicação; porém, é exatamente nesse contexto que a prevenção quaternária é profundamente necessária, e a dificuldade de sua prática exige articular outros saberes e recursos além do nível de evidência ou do grau de recomendação de uma ou outra ação. As crenças em saúde são objeto de um cuidado centrado na pessoa, e muitas delas são inspiradas ou traduzidas por ditados populares. Nesse ensaio, discuto o excesso de intervenções e a prevenção quaternária a partir de alguns deles. Analisando frases como “é melhor prevenir do que remediar”, apresento os aforismos como ferramentas de compreensão da prevenção quaternária, podendo ser usados por profissionais e docentes para discutir essa prática contra-hegemônica com pacientes e estudantes. Ao articular os saberes popular e profissional, o texto contribui à competência cultural da Atenção Primária à Saúde e ajuda a produzir encontros clínicos mais harmoniosos e a promover um cuidado menos invasivo, medicalizador e danoso.


Palavras-chave


Aforismos e Provérbios como Assunto; Medicina de Família e Comunidade; Prevenção Quaternária; Competência Cultural; Medicalização

Texto completo:

PDF/A

Referências


Kuehlein T, Sghedoni D, Visentin G, Gérvas J, Jamoulle M. Prevenção quaternária, uma tarefa do clínico geral. Primary Care. 2010;10(18):350-4.

Jamoulle M, Gusso G. Prevenção quaternária: primeiro não causar dano. In: Gusso G, Lopes JMC, org. Tratado de Medicina de Família e Comunidade: princípios, formação e prática. Porto Alegre: Artmed; 2012. p. 205-11.

Cardoso RV. Quaternary prevention: a gaze on medicalization in the practice of family doctors. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2015;10(35):1-10. http://dx.doi.org/10.5712/rbmfc10(35)1117

Jamoulle M. Quaternary prevention, an answer of family doctors to overmedicalization. Int J Health Policy Manag. 2015;4(2):61-4. http://dx.doi.org/10.15171/ijhpm.2015.24

Nordenstrom J. Medicina baseada em evidências: seguindo os passos de Sherlock Holmes. Porto Alegre: Artmed; 2008.

Stein AT. Medicina Baseada em Evidências aplicada à prática do médico de família. In: Gusso G, Lopes JMC, eds. Tratado de Medicina de Família. Porto Alegre: Artmed; 2012.

McWhinney IR, Freeman T. Manual de Medicina de Família e Comunidade. Porto Alegre: Artmed; 2001. p. 151-204.

Pendleton D, Schofield T, Tate P, Havelock P. A Nova Consulta - desenvolvendo a comunicação entre médico e paciente. Porto Alegre: Artmed; 2011.

Stewart M, Brown JB, Donner A, McWhinney IR, Oates J, Weston WW, et al. The impact of patient-centered care on outcomes. J Fam Pract. 2000;49(9):796-804.

Pérez-Fernández M, Gérvas J. El efecto cascada: implicaciones clínicas, epidemiológicas y éticas. Med Clin (Barc). 2002;118(2):65-7. http://dx.doi.org/10.1016/S0025-7753(02)72283-5

Oliveira FA. Antropologia nos serviços de saúde: integralidade, cultura e comunicação. Interface (Botucatu). 2002;6(10):63-74. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832002000100006

Silva-Junior ND, Gonçalves G, Demétrio F. Escolha do itinerário terapêutico diante dos problemas de saúde: considerações socioantropológicas. Rev Eletrônica Disc Hist. 2013;1(1):1-12.

Clark EG, Leavell H. Níveis de aplicação da Medicina Preventiva. In: Leavell H, Clark EG, orgs. Medicina Preventiva. Rio de Janeiro: FENAME; 1977. p. 11-36.

Bentzen N, ed. Wonca Dictionary of General/Family Practice. Copenhagen: Maanedsskrift for Praktisk Laegegerning; 2003.

Jamoulle M. Information et Informatisation en Médecine Générale. In: Les Informa-g-iciens. Namur: Presses Universitaires de Namur. 1986. p. 193-209.

Jamoulle M, Roland M. Quaternary prevention [Internet]. 1995. [cited 2018 Jun 23]:1-6. Available from: http://www.ph3c.org/PH3C/docs/27/000103/0000261.pdf

Martins C, Godycki-Cwirko M, Heleno B, Brodersen J. Quaternary prevention: reviewing the concept. Eur J Gen Pract. 2018;24(1):106-11. http://dx.doi.org/10.1080/13814788.2017.1422177

Tófoli LF, Gonçalves DA, Fortes S. Somatização e sintomas sem explicação médica. In: Gusso G, Lopes JMC, orgs. Tratado de Medicina de Família e Comunidade: princípios, formação e prática. Porto Alegre: Artmed; 2012. p. 1897-905.

Illich I. A expropriação da saúde: nêmesis da medicina. 4a ed. São Paulo: Nova Fronteira; 1975.

Moynihan R, Heath I, Henry D. Selling sickness: the pharmaceutical industry and disease mongering. BMJ. 2002;324(7342):886-91. http://dx.doi.org/10.1136/bmj.324.7342.886

Castiel LD, Álvarez-Dardet C. A saúde persecutória: os limites da responsabilidade. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2007. 136 p.

Bem Estar [acesso 2018 Abr 6]. Disponível em: http://g1.globo.com/bemestar/

Cascudo LC. Coisas que o povo diz. 2ª ed. São Paulo: Global Editora; 2009.

Speake J, Simpson J. The Oxford Dictionary of Proverbs. 5th ed. Nova York: Oxford University Press; 2008.

Gomes JP. É melhor prevenir do que remediar? A ciência dos ditados populares: Centro de pesquisa usa expressões do dia a dia para divulgar estudos envolvendo radicais livres. Jornal da USP [Internet]. [acesso 2018 Mar 31]. Disponível em: http://jornal.usp.br/universidade/e-

melhor-prevenir-do-que-remediar-a-ciencia-dos-ditados-populares/

US Preventive Services Task Force, Bibbins-Domingo K, Grossman DC, Curry SJ, Davidson KW, Epling JW Jr, García FA, et al. Statin Use for the Primary Prevention of Cardiovascular Disease in Adults: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2016;316(19):1997-2007. http://dx.doi.org/10.1001/jama.2016.15450

Chou R, Dana T, Blazina I, Daeges M, Jeanne TL. Statins for Prevention of Cardiovascular Disease in Adults: Evidence Report and Systematic Review for the US Preventive Services Task Force. JAMA. 2016;316(19):2008-24. http://dx.doi.org/10.1001/jama.2015.15629

Neves CMFP, Deveza M, Teixeira RJ. Hipotireoidismo subclínico em idosos na atenção primária: ênfase na prevenção quaternária. Rev Hosp Univ Pedro Ernesto. 2016;15(3):227-34. http://dx.doi.org/10.12957/rhupe.2016.29448

LeFevre ML; U.S. Preventive Services Task Force. Screening for thyroid dysfunction: U.S. Preventive Services Task Force recommendation statement. Ann Intern Med. 2015;162(9):641-50. http://dx.doi.org/10.7326/M15-0483

Villar HC, Saconato H, Valente O, Atallah AN. Thyroid hormone replacement for subclinical hypothyroidism. Cochrane Database Syst Rev. 2007;(3):CD003419. http://dx.doi.org/10.1002/14651858.CD003419.pub2

Almeida Filho ND, Rouquayrol MZ. Introdução à Epidemiologia. 4ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2013.

Ilic D, Neuberger MM, Djulbegovic M, Dahm P. Screening for prostate cancer. Cochrane Database Syst Rev. 2013;(1):CD004720. http://dx.doi.org/10.1002/14651858.CD004720.pub3

Modesto AAD, Lima RLB, D’Angelis AC, Augusto DK. Um novembro não tão azul: debatendo rastreamento de câncer de próstata e saúde do homem. Interface (Botucatu). 2018;22(64):251-62. http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622016.0288

Ammer C. The American Heritage dictionary of idioms. Boston: Houghton Mifflin; 1997.

Starfield B. Is US health really the best in the world? JAMA. 2000;284(4):483-5.

Makary MA, Daniel M. Medical error-the third leading cause of death in the US. BMJ. 2016;353:i2139. http://dx.doi.org/10.1136/bmj.i2139

Pereira MG, Galvão TF. Heterogeneidade e viés de publicação em revisões sistemáticas. Epidemiol Serv Saúde. 2014;23(4):775-8. http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742014000400021

Kicinski M, Springate DA, Kontopantelis E. Publication bias in meta-analyses from the Cochrane Database of Systematic Reviews. Stat Med. 2015;34(20):2781-93. http://dx.doi.org/10.1002/sim.6525

Ross JS, Tse T, Zarin DA, Xu H, Zhou L, Krumholz HM. Publication of NIH funded trials registered in ClinicalTrials.gov: cross sectional analysis. BMJ. 2012;344:d7292. http://dx.doi.org/10.1136/bmj.d7292

Plataforma Brasil [acesso 2018 Jan 23]. Disponível em: //plataformabrasil.saude.gov.br/login.jsf

Costa JF. A medicina como projeto social: o controle dos corpos e sexos. In: Souza AN, Pintaguy J, orgs. Saúde, corpo e sociedade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; 2006. p. 133-43.

McCaffery KJ, Jansen J, Scherer LD, Thornton H, Hersch J, Carter SM, et al. Walking the tightrope: communicating overdiagnosis in modern healthcare. BMJ. 2016;352:i348. http://dx.doi.org/10.1136/bmj.i348

Ruiz-Cantero MT, Cambronero-Saiz B. La metamorfosis de la salud: invención de enfermedades y estrategias de comunicación. Gac Sanit. 2011;25(3):179-81. http://dx.doi.org/10.1016/j.gaceta.2011.03.004

Gérvas J, Gavilán E, Gorricho J. Medicalización del envejecimiento y síndrome por déficit de testosterona. Bol Inform Farmacot Nav. 2012;20(4):1-8.

Tesser CD. Prevenção Quaternária para a humanização da Atenção Primária à Saúde. Mundo Saúde. 2012;36(3):416-26.

Fabbri A, Gregoraci G, Tedesco D, Ferretti F, Gilardi F, Iemmi D, et al. Conflict of interest between professional medical societies and industry: a cross-sectional study of Italian medical societies’ websites. BMJ Open.

;6(6):e011124. http://dx.doi.org/10.1136/bmjopen-2016-011124

Cochrane. [acesso 2018 Jun 23]. Available from: www.cochrane.org/ http://www.cochrane.org/pt/evidence

U.S. Preventive Services Task Force. [acesso 2018 Jun 23]. Disponível em: https://www.uspreventiveservicestaskforce.org

Quick summaries of evidence-based medicine. [acesso 2018 Jun 23]. Disponível em: http://www.thennt.com

Portal SBE. Saúde Baseada em Evidências. [acesso 2018 Jun 23]. Disponível em: http://psbe.ufrn.br

Laskin DM. The art of doing nothing. J Oral Maxillofac Surg. 1985;43(2):72. http://dx.doi.org/10.3109/13814788.2012.733691

Demicheli V, Jefferson T, Ferroni E, Rivetti A, Di Pietrantonj C. Vaccines for preventing influenza in healthy adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018;2:CD001269. http://dx.doi.org/10.1002/14651858.CD001269.pub6

Fenner F, Henderson DA, Arita I, Jezek Z, Ladnyi ID. Smallpox and its eradication. Genebra: World Health Organization; 1988. [cited 2018 Jun 23]. Available from: http://www.who.int/iris/handle/10665/39485

Brasil. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Coordenação de Prevenção e Vigilância. Divisão de Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero. 2ª ed. Rio de Janeiro: INCA; 2016. [cited 2018 Jun 10]. Available from: http://www1.inca.gov.br/inca/Arquivos/DDiretrizes_para_o_Rastreamento_do_cancer_do_colo_do_utero_2016_corrigido.pdf

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Rastreamento. Brasília: Ministério da Saúde; 2010.

Rolfe A, Burton C. Reassurance after diagnostic testing with a low pretest probability of serious disease: systematic review and meta-analysis. JAMA Intern Med. 2013;173(6):407-16. http://dx.doi.org/10.1001/jamainternmed.2013.2762

Norman AH, Tesser CD. Prevenção quaternária na atenção primária à saúde: uma necessidade do Sistema Único de Saúde. Cad Saúde Pública. 2009;25(9):2012-20. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2009000900015




DOI: https://doi.org/10.5712/rbmfc14(41)1781

Apontamentos

  • Não há apontamentos.




Direitos autorais 2019 Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição - NãoComercial 4.0 Internacional.

 

Desenvolvido por:

Logomarca da Lepidus Tecnologia