Dimensões e singularidades da Medicina de Família e Comunidade

  • Armando Henrique Norman Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.

Resumo

A edição nº24 da Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (RBMFC) traz importantes temas a nossa reflexão, tanto para a Estratégia Saúde da Família (ESF) - quanto à sua efetividade e abrangência - como para a especialidade em Medicina de Família e Comunidade (MFC), visto que apresenta temas que nos distinguem de outras áreas da biomedicina. A primeira temática poderia ser definida enquanto o potencial da ESF para a produção de saúde no Brasil. Um exemplo é o artigo Desempenho de indicadores nos municípios com alta cobertura da Estratégia Saúde da Família no Estado de São Paulo que destaca como alguns municípios desse Estado apresentam melhores resultados com relação aos indicadores pactuados, quando comparados com municípios que não expandiram a cobertura da ESF. A segunda temática resgata aspectos centrais da especialidade em MFC. Apesar da morte e sofrimento serem comuns a todas as especialidades médicas, na MFC, em particular, ela é problematizada na relação médico-paciente e nos programas de formação, como, por exemplo, na ferramenta Ciclo de vida1. Nesta ferramenta, a morte se destaca como uma das crises normativas que marcam a existência, visto que nela se encerra o drama do sofrimento e da condição humana2. Assim, o artigo Crying Patients in General/Family Practice: incidence, reasons for encounter and health problems resgata o potencial do MFC para ressignificar o sofrimento humano através do cuidado personalizado e longitudinal dos pacientes. Quais os significados das lágrimas? Estamos preparados para um aprofundamento nesta dimensão do cuidado? Esses matizes da profissão do MFC também se descortinam no caso clínico intitulado Ser Médico de (sua) Família. Nele, o autor explora os limites da ética e da relação profissional-familiar ao contextualizar a tomada de decisão frente ao processo de cuidado, adoecimento e morte de um membro da família.

Entretanto, a morte ainda segue sendo um tabu, um tema para não se discutir e tampouco um fenômeno a ser reconhecido. Isso é particularmente verdadeiro, visto que são poucos os médicos e enfermeiros que se sentem confortáveis para lidar com esse tema2. É reconhecido que os processos de morte são momentos dos mais tocantes para os seres humanos, pois remetem a nossa própria finitude. Por exemplo, Yalom3 caracteriza a morte como sendo uma ‘experiência limite’ (boundary experience), isto é, um evento que nos impulsiona a nos confrontarmos com nossa própria situação existencial no mundo. Para o autor, o reconhecimento da finitude está na raiz das ansiedades e, por isso, o ser humano constrói mecanismos de defesa para negá-la, mecanismos que essencialmente moldam nossas estruturas psíquicas3. Tanto é assim, que a morte tem sido cada vez mais ‘medicalizada’ nas sociedades ocidentais industrializadas, refletindo uma dificuldade coletiva do nosso tempo em lidar com esse tema e, por isso, o próprio conceito de ‘morte natural’ está desaparecendo4. Portanto, situações de doença e morte, entre outras crises normativas, podem abalar essas estruturas psíquicas, despertando sinais e sintomas que podem ou não ser patologizados, dependendo da abordagem que se oferece a essas expressões do ser.

Contudo, é importante ressaltar que vida e morte são interdependentes, ou seja, existem simultaneamente e não deveriam ser percebidas como um fenômeno linear e consecutivo. Ao contrário, a morte deveria ser vivenciada como um evento cotidiano, firmado no agora e não como um fenômeno projetado no futuro3. Neste contexto de simultaneidade, a morte também celebra a vida. Por isso, a presente edição também homenageia a vida de Ian McWhinney, falecido em 28 de setembro de 2012, aos 85 anos de idade. Sem dúvida, McWhinney contribuiu enormemente para o fortalecimento da Medicina de Família muito além das fronteiras canadenses.  McWhinney afirmava que os MFC são diferentes por que não estão atrelados a órgão (ou sistema corpóreo) ou a tecnologias, pois o MFC se define mais em termos de relação médico-paciente5.  Ele advogava que a prática do MFC deveria ser reflexiva, apoiada num pensamento que denominou de ‘organísmico’ para transpor dualidades tradicionais entre mente-corpo, saúde-doença e causa-efeito5. Assim, McWhinney organizou e sistematizou um corpo de conhecimento que define a especialidade do Médico de Família.  O obituário escrito pelo Dr. Gustavo Gusso ressalta os principais feitos desse grande homem e profissional que trabalhou como médico de família até o final de sua vida, nos deixando um vasto legado teórico, ainda a ser explorado.

Assim, esta edição brinda o leitor com uma gama de temas com os quais esperamos poder contribuir para a prática dos profissionais da APS, quer por ampliar sua reflexão sobre o processo de trabalho, quer por estimulá-los a pesquisar temas relevantes para a APS/ESF e, em especial, para os médicos de família e comunidade.

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Biografia do Autor

Armando Henrique Norman, Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.

Editor da Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.

Possui graduação em medicina pela Universidade Federal do Paraná (1995), Residência em Medicina Geral e Comunitária/Medicina de Família e Comunidade pela PUC-PR (2001) e mestrado em Antropologia Médica pela Universidade de Durham/Reino Unido (2011). Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia Médica, atuando principalmente nos seguintes temas: Pagamento por Performance (P4P), Prevenção Quaternária, Medicalização Social, Rastreamento, Medicina de família e comunidade, Atenção Primária a Saúde (APS), Medicina Preventiva e Medicinas Complementares (Homeopatia).

Mais Informações: Currículo Lattes

Referências

Poon VHK, Bader E. Individual and family life cycles: prediciting important transition points. Toronto: Working with Families Institute; 2003.

Christie-Seely J. Working with the family in primary care: a systems approach to health and illness. Westport: Praeger Publishers; 1984. v. 22, p. 346-55.

Yalom ID. Existencial Psychotherapy. New York: Basic Books, 1980. part 1, 2:29-30; 5:159-60.

Helman CG. Culture, Health and Ilness. 5th ed. London: Hodder Arnold; 2007. v. 9, p. 232-3.

McWhinney IR. The importance of being different. Br J Gen Pract. 1996 (July): 433-436. PMid:8776918 PMCid:1239699.

Publicado
2012-11-26
Como Citar
Norman, A. H. (2012). Dimensões e singularidades da Medicina de Família e Comunidade. Revista Brasileira De Medicina De Família E Comunidade, 7(24), 137-138. https://doi.org/10.5712/rbmfc7(24)675
Seção
Editorial