Luiz Felipe: o Médico de Família que fez a diferença

José Mauro Ceratti Lopes

Resumo


Luiz Felipe Cunha Mattos (21/02/1956 – 04/12/2012)

“Se antes ajudava a construir a história da Medicina de Família,

hoje é parte fundamental desta história.”

 

Luiz Felipe formou-se em Medicina pela Universidade de Passo Fundo (UPF-RS), desde este período apresentava interesse pela saúde pública. Nas apresentações e atividades, quando perguntado sobre qual o professor que marcara sua formação, sempre se referia ao seu professor de saúde coletiva da UPF. Formado em 1981, e contrariando a “moda” da época, realizou sua Residência em Medicina Geral e Comunitária na Unidade Sanitária São José do Murialdo (Porto Alegre, 1982-1983), sendo colega de Airton Stein, Elizabeth Wartchow, Magda Costa, Maria Teresa Pinho e Cristina Lemos, os quais - juntamente com ele e Wanda Loguércio, José Mauro C. Lopes e Hermes Cattani - em 1984 iriam compor o grupo dos primeiros médicos contratados da Unidade de Medicina de Família do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC). Este fato teve dois aspectos inovadores: foi, talvez, a primeira contratação de médicos de família como tais, e realizada através de concurso que envolveu um processo seletivo rigoroso (prova da Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS), entrevista e prova oral).

Desde 26 de abril de 1984, Luiz Felipe atuou como médico da Unidade Conceição, “na ponta”, sem interrupções na atividade clínica, sendo um dos médicos de maior longitudinalidade no Brasil. Desde o início envolveu-se ativamente na construção do Serviço de Saúde Comunitária, participando de sua expansão. Ocupou cargos como Chefe de Unidade, Preceptor e Supervisor da Residência em MFC e Coordenador da COREME do HNSC. Alguns destes cargos foram ocupados por vários mandatos. Uma de suas preocupações constantes era com a qualificação clínica do MFC, participando ativamente das discussões e debates dos anos 80 e 90 sobre qual o perfil do MFC necessário para o Sistema de Saúde do Brasil.

Um aspecto talvez desconhecido seja sua atuação - durante a fase da Reforma Sanitária – no Conselho Municipal de Saúde de Porto Alegre, como representante do HNSC, tendo feito parte de sua Câmara Técnica. Fez especialização em Saúde Pública pela Escola de Saúde Pública do RS, no final dos anos 80, tendo como tema de seu trabalho de conclusão “O paciente frequente”. Desde o início desempenhou importante papel nas atividades associativas, fazendo parte do grupo de MFCs que assumiu pela primeira vez o Departamento de Saúde Coletiva da Associação Médica do Rio Grande do Sul (anos 80). Outra atividade pouco conhecida do Luiz Felipe foi participar nos anos 90, juntamente com Carlos Grossman e José Mauro C. Lopes, de projeto do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR-RS) para divulgação da Saúde da Família e da Medicina de Família junto a municípios do Rio Grande do Sul (RS). Este projeto - de 1998 a 1999 - percorreu dezenas de municípios do RS utilizando uma carreta equipada com consultórios e salas de aula/grupo, realizando educação em saúde e rastreamento de doenças, além de auxiliar Secretários de Saúde na elaboração de projetos de municipalização.

Na busca pela ampliação da formação de Médicos de Família, Luiz Felipe participou da implantação dos Programas de Residência em MFC do Hospital da Cidade em Passo Fundo (RS) no final dos anos 80 e da Universidade de Caxias do Sul (UCS-RS) no início dos anos 2000. Atuou constantemente na Comissão Estadual de Residência Médica do RS, defendendo a residência como o padrão ouro de especialização médica. Foi professor da UCS e da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA-RS).

Dentro de uma perspectiva de qualificar-se como formador, realizou Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2005). Participou da Diretoria da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), sendo Diretor de Residência (2008-2010) e Vice?Presidente (2010-2012). Participou do grupo designado pela SBMFC que em 2007 desenvolveu a “Oficina de Capacitação de Preceptores em MFC”, que até 2012 teve 52 edições em todo país, atingindo mais de mil e cem médicos. Na Associação Gaúcha de Medicina de Família e Comunidade participou das três últimas diretorias. Fazia parte da Câmara Técnica de MFC do CREMERS.

Atualmente também integrava a Comissão Organizadora do Congresso WONCA Rural e IV Sulbrasileiro de MFC a realizar-se em Gramado em 2014. Fazia parte também da Associação dos Médicos e Odontólogos do HNSC, da qual era o atual Presidente. Em todos estes espaços, Luiz Felipe sempre defendeu uma Saúde Pública de qualidade, de gestão competente e voltada as pessoas que utilizam o Sistema Único de Saúde; da necessidade de políticas efetivas para reconhecimento do trabalho dos profissionais da Atenção Primária, bem como uma ampliação da formação de Médicos de Família e Comunidade, através de Programas de Residência qualificados. Seu falecimento em 04 de dezembro de 2012 encerra prematuramente uma trajetória de dedicação profissional direcionada à Medicina de Família, e seu sepultamento dia 05 de dezembro – Dia do Médico de Família – de certa forma homenageia esta dedicação.

 


Texto completo:

PDF/A


DOI: https://doi.org/10.5712/rbmfc7(25)680

Apontamentos

  • Não há apontamentos.




Direitos autorais 2012 José Mauro Ceratti Lopes

URL da licença: https://creativecommons.org/licenses/by-nc/3.0/br/

 

Desenvolvido por:

Logomarca da Lepidus Tecnologia