O espaço de entrecruzamento das palavras: a relação médico-paciente

Armando Henrique Norman

Resumo


A Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (RBMFC) nesta edição especial de Volume 10 número 35, aborda o tema da Prevenção Quaternária (P4), que passou a fazer parte dos descritores da Bireme (DeCS) em 06/04/2015, graças a iniciativa da RBMFC.2,3 Assim, novas palavras começam a ganhar forma e força como discurso contra-hegemônico dentro da própria medicina por meio da ‘liderança moral e intelectual’4 de pesquisadores e médicos práticos. A ilustração da capa, intitulada ‘Palavras da Prevenção’ faz referência à importância de certos termos no campo da prevenção, bem como aos vários temas discutidos na presente edição. De certa forma, é por meio da linguagem e do uso das palavras que se sustenta a prática da medicina de família, calcada na relação médico-paciente. Esta se constitui como um dos cernes da especialidade e tem a palavra como potencializadora de atividades de prevenção quaternária. As palavras, muitas vezes, podem causar iatrogenia, ao se rotular ou transformar potenciais riscos em ‘doença’, e assim gerar dúvidas e medos nos pacientes pela produção de pseudodoenças. Mas é também por meio das palavras que se pode tranquilizar e produzir efeitos terapêuticos positivos nos pacientes. Portanto, a palavra como um dos pilares da comunicação, necessita ser adequadamente trabalhada para facilitar o entendimento entre profissionais de saúde e pacientes durante a troca de informações. É a partir da relação médico-paciente, espaço de entrecruzamento das palavras, que se constrói no cotidiano a prevenção quaternária.

A presente edição especial é uma construção coletiva liderada brilhantemente pelo editor convidado, Dr. Marc Jamoulle, idealizador do conceito da P4. O entusiasmo e dinamismo do Dr. Jamoulle em fortalecer uma rede internacional de pesquisadores e médicos de família preocupados com os excessos da medicina foi fundamental para a materialização desta edição. Se da dimensão epidemiológica e dos ensaios clínicos surgiram provas científicas quanto aos efeitos danosos do sobrediagnóstico e sobretratamento, foi do campo da prática dos médicos de família que surgiu o conceito da prevenção quaternária. Hoffman e Wilkes afirmam que a ‘P4 oferece um novo paradigma, ao insistir que o dano médico está longe de ser algo trivial ou uma preocupação secundária’. A prevenção quaternária é a resposta prática, concreta e possível para o enfrentamento cotidiano de uma epidemia iatrogênica velada resultante do intervencionismo da biomedicina e do domínio da informação. Nesse sentido, esta edição aborda alguns dos temas relativos à prática médica ao discutir os fenômenos decorrentes dos excessos da medicina, rotulados pelo prefixo em inglês ‘over’.

A seção de artigos originais inicia a temática da P4 no campo da semântica com os artigos de Jamoulle et al. The words of prevention, part I: changing the model e The words of prevention, part II: ten terms in the realm of quaternary prevention. O primeiro artigo revisita os conceitos e definições das prevenções primária, secundária, terciária e quaternária destacando a necessidade de mudança de paradigma de uma perspectiva temporal-linear para uma perspectiva co-construtivista, fundamentada na relação com o outro. Já o segundo artigo, sinaliza para a necessidade da inclusão nas bases de dados científicas de termos importantes para o campo da medicina, tais como: sobrediagnóstico e sobretratamento, incidentalomas, sobrerrastreamento, desprescrição, sobremedicalização, entre outros. Alguns desses termos mereceram aprofundamento: Gómez Santana et al. discorrem sobre o uso criterioso da desprescrição como medida de prevenção quaternária; Pizzanelli define e aborda questões importantes relativas ao tema do sobrerrastreamento; e Mariño traz uma revisão sobre o tema dos incidentalomas e suas implicações na prática médica. Já Cardoso, discute e contextualiza o tema da medicalização (e sobremedicalização) e os desafios da prática da P4, visto que de certa forma, todos esses neologismos tem como base o excesso da prática e da extrapolação da ‘jurisdição’ médica. (continua)...

 


Palavras-chave


Prevenção Quaternária; Relações Médico-Paciente; Medicalização; Atenção Primária à Saúde; Medicina de Família e Comunidade

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Referências


Crehan K. Gramsci, culture and anthropology. London: Pluto Press, 2002.

Pan-American Health Organization. Disponivel em: http://www.paho.org/bireme/index.php?option=com_content&view=article&id=283%3Aja-esta-disponivel-a-versao-2015-do-decs&Itemid=73〈=pt (acessado em 21-05-2015)

Bireme – DeCS. Disponível em: http://decs.bvs.br/P/visaogeral2015.htm (acessado em 21-05-2015).

Kurtz DV. Hegemony Anthropology: Gramsci, exegeses, reinterpretations. Critique of Anthropology. 1996;16(2):103–35.

Heath I. “Arm in arm with righteousness.” Philosophy, Ethics, and Humanities in Medicine [Internet]. 2015;10(1). Available from: http://www.peh-med.com/content/10/1/7




DOI: https://doi.org/10.5712/rbmfc10(35)1141

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