Mídia e saúde

a cobertura da epidemia de sarampo de 2019 no Brasil

Palavras-chave: Meios de Comunicação, Atenção Primária à Saúde, Sarampo, Vacinação.

Resumo

Introdução: A mídia é um importante elemento na construção de significados sobre os acontecimentos de saúde, influenciando nas crenças e na formação da opinião popular, tendo especial papel nos processos epidêmicos. No atual cenário epidemiológico do Brasil, que está vivenciando o recrudescimento do sarampo, reintroduzido no país em 2018, os profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) devem estar instrumentalizados sobre os sentidos que estão sendo construídos pelos veículos de comunicação. Objetivo: Avaliar o conteúdo midiático que está sendo produzido acerca do atual cenário epidemiológico do sarampo no Brasil, observando que sentidos estão sendo construídos e analisando-os criticamente, traçando um paralelo com o papel que a APS ocupa neste cenário, principalmente no que diz respeito à educação em saúde. Métodos: Trata-se de pesquisa qualitativa, exploratória, na qual realizou-se duas buscas através da ferramenta de busca online Google Notícias. Buscou-se pelo termo ‘sarampo’ e pelos termos ‘sarampo’ e ‘autismo’. Foram catalogados os 50 primeiros resultados, sendo o critério de inclusão que fossem notícias. Utilizou-se a análise de conteúdo, inicialmente, para categorização e inferência, porém foi necessário utilizar instrumentos da análise de discurso para aprofundar algumas subjetividades encontradas. Resultados: A busca retornou resultados das cinco regiões do país, todos com postura pró-vacina. A APS foi citada em praticamente todos os resultados encontrados, que frisavam a disponibilidade da vacina gratuitamente neste nível de atenção. As três áreas temáticas encontradas a partir da análise do material foram: “gravidade, sequelas e morte: a produção do sentido do medo”; “vacinação, medidas e ações; e “justificativas para a queda da cobertura vacinal, responsabilização do indivíduo e atribuição do cenário ao movimento antivacina”. Conclusão: Conclui-se que o atual cenário epidemiológico do sarampo tem sido encarado como unicausal, o que precisa ser revisto para que as campanhas governamentais e as ações das Equipes de Saúde da Família tornem-se mais efetivas. A estratégia do convencimento pelo medo ou pela obediência mostra-se ineficaz. Pouco ou nada se discute sobre as recentes políticas de desmonte do Sistema Único de Saúde, que têm impacto direto na cobertura da Estratégia de Saúde da Família. Também pouco foi discutido sobre questões de acesso. A compreensão deste cenário sob uma ótica multifacetada e contextualizada ao momento sociocultural e histórico é o ponto central para o sucesso do desfecho.

Metrics

Carregando Métricas ...

Biografia do Autor

Camila Carvalho de Souza Amorim Matos, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Médica de Família e Comunidade. Professora Efetiva do Departamento de Ciências da Saúde da UFSC Campus Araranguá.

Referências

(1) Rangel-S ML. Epidemia e mídia: sentidos construídos em narrativas jornalísticas. Saude Soc. 2003 Dez;12(2):5-17. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-12902003000200002

(2) Villela EFM, Natal D. Mídia, saúde e poder: um jogo de representações sobre dengue. Saude Soc. 2014 Set;23(3):1007-1017. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-12902014000300022

(3) Logullo P. Papel das vias de comunicação na eficácia da vacinação contra o sarampo na cidade de São Paulo [dissertação]. São Paulo (SP): Universidade de São Paulo; 2001.

(4) Zorzetto R. Causas da queda na vacinação. Pesquisa FAPESP [Internet]. 2018 Ago; [citado 2019 Set 22]; 19(270):19-24. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2018/08/Pesquisa_270-1.pdf

(5) Araújo I. A reconversão do olhar: prática discursiva e produção dos sentidos na intervenção social. 1ª ed. São Leopoldo: Unisinos; 2000.

(6) Deslandes SF, Gomes R, Minayo MCS. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 34a ed. Perópolis (RJ): Vozes; 2015.

(7) Caregnato RCA, Mutti R. Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo. Texto Contexto - Enferm. 2006 Dez;15(4):679-84. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-07072006000400017

(8) Lerner K, Gradella PA. Mídia e pandemia: os sentidos do medo na cobertura de Influenza H1N1 nos jornais cariocas. Rev Eco-Pós. 2011;14(2):33-54. DOI: https://doi.org/10.29146/eco-pos.v14i2.1204

(9) Vaz P, Pombo M, Fantinato M, Pecly G. O fator de risco na mídia. Interface (Botucatu). 2007 Abr;11(21):145-63. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832007000100013

(10) Kucinski B. Jornalismo, saúde e cidadania. Interface (Botucatu). 2000;4(6):181-6. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832000000100025

(11) Poland GA, Jacobson RM. Understanding those who do not understand: a brief review of the anti-vaccine movement. Vaccine. 2001 Mar;19(17-19):2440-5. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/s0264-410x(00)00469-2

(12) Aguiar R, Araújo IS. A mídia em meio às ‘emergências’ do vírus Zika: questões para o campo da comunicação e saúde. RECIIS – Rev Eletron Comum Inf Inov Saúde. 2016;10(1):1-15. DOI: http://dx.doi.org/10.29397/reciis.v10i1.1088

(13) Bueno WC. Comunicação para a saúde: uma experiência brasileira. São Paulo: Plêiade; 1996.

(14) Morosini MVGC, Fonseca AF, Lima LD. Política Nacional de Atenção Básica 2017: retrocessos e riscos para o Sistema Único de Saúde. Saúde Debate. 2018 Jan;42(116):11-24. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0103-1104201811601

(15) Couto MT, Barbieri CLA. Cuidar e (não) vacinar no contexto de famílias de alta renda e escolaridade em São Paulo, SP, Brasil. Ciênc Saúde Coletiva. 2015 Jan;20(1):105-114. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232014201.21952013

(16) Barata RB, Ribeiro MCSA, Moraes JC, Flannery B. Socioeconomic inequalities and vaccination coverage: results of an immunisation coverage survey in 27 Brazilian capitals, 2007-2008. J Epidemiol Community Health. 2012 Jan;66(10):934-941. DOI: http://dx.doi.org/10.1136/jech-2011-200341

(17) Moraes JC, Barata RCB, Ribeiro MCSA, Castro PC. Cobertura vacinal no primeiro ano de vida em quatro cidades do Estado de São Paulo, Brasil. Rev Panam Salud Publica. 2000;8(5):332-41. DOI: https://www.scielosp.org/article/rpsp/2000.v8n5/332-341/

(18) Moraes JC, Ribeiro MCSA. Desigualdades sociais e cobertura vacinal: uso de inquéritos domiciliares. Rev Bras Epidemiol. 2008 Mai;11(Supl 1):113-24. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2008000500011

(19) Barata RB, Pereira SM. Desigualdades sociais e cobertura vacinal na cidade de Salvador, Bahia. Rev Bras Epidemiol. 2013 Jun;16(2):266-77. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2013000200004

(20) Waldman EA. Mesa redonda: desigualdades sociais e cobertura vacinal: uso de inquéritos domiciliares. Rev Bras Epidemiol. 2008 Mai;11(Supl 1):129-32. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2008000500013

(21) Lefèvre F, Lefèvre AMC, Ignarra RM. O conhecimento da intersecção: uma nova proposta para as relações entre a academia e a sociedade. São Paulo: USP, FSP: IPDSC; 2007.

(22) Bedford H, Elliman D. Concerns about immunization. BMJ. 2000 Jan;320:240-3. DOI: https://doi.org/10.1136/bmj.320.7229.240

Publicado
2020-05-10
Como Citar
Matos, C. C. de S. A. (2020). Mídia e saúde: a cobertura da epidemia de sarampo de 2019 no Brasil. Revista Brasileira De Medicina De Família E Comunidade, 15(42), 2211. https://doi.org/10.5712/rbmfc15(42)2211
Seção
Artigos de Pesquisa