Atendimento ambulatorial no cárcere

o papel da medicina de família

Autores

  • Angelica Campos Cintra Volpe Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Hospital das Clínicas – Ribeirão Preto (SP), Brasil.
  • Renata Moreira Serra Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Ribeirão Preto (SP), Brasil.
  • Luciana Cisoto Ribeiro Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Ribeirão Preto (SP), Brasil. https://orcid.org/0000-0002-1830-7153
  • Janise Braga Barros Ferreira Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Ribeirão Preto (SP), Brasil. https://orcid.org/0000-0001-7480-937X
  • Luciane Loures dos Santos Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Departamento de Medicina Social – Ribeirão Preto (SP), Brasil. https://orcid.org/0000-0002-2585-1544

DOI:

https://doi.org/10.5712/rbmfc18(45)3862

Palavras-chave:

Prisões, Assistência ambulatorial, Atenção primária à saúde, Brasil.

Resumo

No Brasil, as pessoas privadas de liberdade estão submetidas a condições inapropriadas de encarceramento, com dificuldades de acesso aos serviços de saúde, ainda que este direito seja reiterado por políticas nacionais e internacionais. Este artigo teve como objetivo apresentar o atendimento de pessoas privadas de liberdade por crimes gerais no período de julho a dezembro de 2019. Estudo observacional, transversal, quantitativo, tipo inquérito de uma amostra aleatória e representativa de uma penitenciária masculina, com aplicação de um questionário sobre as condições de saúde cujos diagnósticos foram categorizados pela Classificação Internacional de Atenção Primária e suas associações analisadas pelo teste de qui-quadrado e análise de variância. A maioria dos 200 participantes tinha entre 30 e 49 anos (73%), era de pardos ou pretos, solteiros, com baixa escolaridade, encarcerados em uma unidade superlotada (227%), tabagistas (49%) e sedentários (75%). O atendimento foi o primeiro para 40% dos presos, 74,5% deles possuíam até dois problemas de saúde, sendo os principais relacionados a problemas endócrinos e metabólicos, como obesidade, dislipidemia e hipertensão arterial. A eutrofia foi o diagnóstico mais encontrado e 65% avaliaram sua saúde como boa ou muito boa. Houve associação entre o número de diagnósticos entre aqueles com maior idade (p<0,01) e a prescrição de medicamentos (p<0,01). O sedentarismo foi mais significante entre os tabagistas com razão de prevalência de 1,65 (intervalo de confiança — IC95% 1,12–2,43). Foram realizadas cerca de duas orientações para cada atendimento, predominando aquela sobre alimentação e prática de atividade física. Foram prescritos medicamentos para metade dos presos atendidos (52,5%) e transferência para atendimento em outros serviços em 5% deles. O estudo revelou a presença de fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis e que o atendimento clínico na unidade prisional por médicos de família e comunidade é exequível e resolutivo, reduzindo atendimentos extramuros, diminuindo custos e aumentando a segurança de trabalhadores e usuários.

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Biografia do Autor

Angelica Campos Cintra Volpe, Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Hospital das Clínicas – Ribeirão Preto (SP), Brasil.

Graduada em Farmácia - Generalista pela Universidade de Franca (2008-2011), ex-aluna de IC com bolsa auxílio concedida pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP. Desenvolvia pesquisas na área de produtos naturais: isolamento, identificação, síntese e ensaios biológicos no Grupo de Pesquisa em Produtos Naturais da UNIFRAN (GPNUF - UNIFRAN). Cursou Medicina pela Faculdade de Medicina de Franca e fez residência em Medicina de Família e Comunidade pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

Luciana Cisoto Ribeiro, Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Ribeirão Preto (SP), Brasil.

Formada em Nutrição pela Universidade de São Paulo (1996), mestrado em Nutrição pela Universidade Federal de São Paulo (2001) e doutorado em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (2005). Atualmente é Professora Doutora do Departamento de Medicina Social no curso de Nutrição e Metabolismo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. Participa da Residência Multiprofissional em Atenção Integral à Saúde da FMRP-USP . Tem experiência na área de Nutrição, com ênfase na Atenção Primária à Saúde, atuando principalmente nos seguintes temas: segurança alimentar e nutricional, avaliação nutricional, populações em condições de vulnerabilidade.

Janise Braga Barros Ferreira, Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Ribeirão Preto (SP), Brasil.

Professora Associada do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Doutorado em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (2007), Mestrado em Ciências Médicas pela Universidade de São Paulo (2000). Residência Médica em Medicina Preventiva e Social- USP(1995-1996) e em Anestesiologia/HCSL- MG (1991-1992) e graduação em Medicina pela Universidade do Vale do Sapucaí - MG (1990). Coordenadora do Núcleo de Saúde da Família 5 da FMRP-USP, desde novembro de 2018 e do NSF 4 de maio de 2020 a abril de 2021. Coordenadora da área de Gestão em Saúde do Centro de Informação e Informática em Saúde da FMRP-USP. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Saúde Pública, atuando principalmente nos seguintes temas: Atenção primaria à saúde/Saúde da família; Planejamento, gestão e avaliação em saúde; População em situação de vulnerabilidade.

Luciane Loures dos Santos, Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Departamento de Medicina Social – Ribeirão Preto (SP), Brasil.

Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (1998) Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade, fez Mestrado em Saúde na Comunidade (2003) e Doutorado em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (2010). Atualmente é docente colaborador da FMRP-USP. Tem experiência na área de Medicina de Família, atuando principalmente com os seguintes temas: Medicina de Família e Comunidade, Atenção Primária à Saúde e Prevenção de Doenças e Promoção da Saúde.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0732219870902709

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Publicado

2023-12-05

Como Citar

1.
Volpe ACC, Serra RM, Ribeiro LC, Ferreira JBB, Santos LL dos. Atendimento ambulatorial no cárcere: o papel da medicina de família. Rev Bras Med Fam Comunidade [Internet]. 5º de dezembro de 2023 [citado 20º de fevereiro de 2024];18(45):3862. Disponível em: https://rbmfc.org.br/rbmfc/article/view/3862

Edição

Seção

Especial Residência Médica

Plaudit