A Hora da Estrela que não vem: Macabéa como cartografia do cuidado às mulheres invisibilizadas na Estratégia Saúde da Família
DOI:
https://doi.org/10.5712/rbmfc21(48)4962Palavras-chave:
Atenção Primária à Saúde, Saúde da Mulher, Medicina de Família e Comunidade.Resumo
Introdução: Macabéa, protagonista de A Hora da Estrela, é um retrato sobre a invisibilidade das mulheres na saúde pública. Tal como a personagem de Clarice Lispector, muitas mulheres seguem silenciadas em seus sofrimentos, negligenciadas por políticas estatais ineficazes e expostas a múltiplas formas de violência: simbólica, institucional e estrutural. Objetivo: Refletir, a partir da figura de Macabéa, sobre o cuidado às mulheres invisibilizadas e suas expressões de sofrimento na Estratégia Saúde da Família (ESF). Métodos: Trata-se de um estudo teórico documental. A partir da cartografia do cuidado, da Medicina Centrada na Pessoa (MCCP) e da clínica ampliada, foram construídos blocos narrativos baseados em diários de campo, reuniões de equipe e visitas domiciliares, compondo territórios afetivos e éticos que emergem da prática clínica cotidiana. Resultados: Os relatos revelam queixas aparentemente banais, como dores vagas, insônia e “cansaço acumulado”, que ocultam histórias de violência estrutural, sobrecarga de cuidado e silenciamentos históricos. Ainda que políticas públicas tenham ampliado o escopo da saúde da mulher ao longo dos anos, muitas dessas experiências continuam à margem da clínica tradicional. A escuta, nesses casos, não pode se limitar à queixa; exige presença, paciência e disposição para reconhecer o que ainda não tem nome. Conclusões: O ensaio propõe uma clínica que acolhe ausências, espera sem pressa e forma médicos capazes de sustentar a complexidade sem reduzila a um diagnóstico. Ao final, sugere que, mesmo quando a “hora da estrela” não chega, o cuidado se reinventa na escuta radical e no gesto de permanecer.
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