O poder transformador da Atenção Primária à Saúde: análise qualitativa do impacto do internato em Estratégia Saúde da Família sobre a formação médica
DOI:
https://doi.org/10.5712/rbmfc21(48)4095Palavras-chave:
Atenção primária à saúde, Educação médica, Internato, Empatia, Determinantes sociais da saúdeResumo
Introdução: A revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Medicina (DCN) em 2014 visou alinhar a formação dos médicos brasileiros com as demandas do Sistema Único de Saúde (SUS), sobretudo no que tange à atuação na Atenção Primária à Saúde (APS). No entanto, uma maior inserção dos estudantes em campos de prática da APS segue como um desafio, sobretudo nas instituições de ensino superior (IES) privadas. Estudos mostram que a inserção em ambientes de cuidado longitudinal favorece o desenvolvimento de habilidades clínicas e comunicacionais, autopercepção social e compreensão dos determinantes no processo de adoecimento, mas ainda há escassez de fontes que avaliem o desenvolvimento de competências afetivas e empáticas durante o estágio na APS. Objetivo: Este estudo buscou avaliar de que forma o internato em Estratégia Saúde da Família (ESF) influencia a percepção de alunos de Medicina com relação à APS, à comunidade e ao território. Métodos: Trata-se de um estudo qualitativo, desenvolvido na Clínica da Família Marcos Valadão (CFMV), no Rio de Janeiro. A população é composta de acadêmicos de quinto e sexto anos de uma faculdade privada de Medicina, que cumpriram estágio curricular obrigatório na unidade. Utilizando análise temática, foram avaliados questionários semiestruturados sobre a APS aplicados antes do estágio e relatórios elaborados ao final do período do internato. Resultados: A análise dos questionários iniciais permitiu identificar uma resistência à subjetivação por parte dos alunos, com maior valorização do desenvolvimento de habilidades cognitivas e psicomotoras no estágio. Já os relatórios revelaram um aprimoramento, também, de competências afetivas, como autoconhecimento, capacidade de subjetivação, reflexividade, escuta e empatia. Conclusões: Com o estudo, puderam-se observar múltiplas vantagens da inserção de graduandos na ESF para o desenvolvimento de competências afetivas. Entretanto, a literatura sobre o tema permanece escassa. Sugere-se a realização de mais pesquisas para fortalecer as evidências dos benefícios da inserção precoce e longitudinal dos estudantes nos campos de prática da APS.
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